Na madrugada, enquanto Nina Simone grita incansavelmente versos que falam de lágrimas e rompimentos, é inevitável se perder no vazio que ficou.Porque muito além da tragédia anunciada de sua partida, o que lateja é a ausência de todos os detalhes que te traziam até mim. Sinto falta de teus silêncios que diziam o que eunão me atrevia a questionar, do cheiro da sua camisa e dos beijos singelos que te dava no ombro. Sinto falta do teu olhar que sutilmente se alegrava com a minha presença, da sua risada marcante, de te beijar a sobrancelha. Sinto falta da sua fala rebuscada sobre assuntos banais, da paz do teu sono e da sua formalidade. Sinto falta inclusive de sua ausência, da espera e de como me sentia quando retornavas.
Ainda musicalmente regida e sem inspiração para um texto unicamente meu, nessa tarde entediante de sábado entre um cochilo e um cigarro, existe Bethânia cantarolando coisas belas aqui e ali. Vejam que lindo Maria Bethânia e António Alçada Batista:
Maria Bethânia Composição: Sueli Costa sobre poema de Ricardo Reis
Segue o teu destino Rega as tuas plantas Ama as tuas rosas O resto é a sombra De árvores alheias
A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos Só nós somos sempre Iguais a nós próprios.
Suave é viver só Grande e nobre é sempre Viver simplesmente Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses
Vê de longe a vida Nunca a interrogues A resposta está além dos deuses.
Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração Os deuses são deuses Porque não se pensam
28 Junho, 2010
Revendo algumas postagens antigas, encontrei uma composição de Oswaldo Montenegro que postei há alguns anos e que chegou a assustar o quanto encaixou-se perfeitamente ao meu “hoje”. Belíssimas palavras que falampor mim, dessa minha existência dúbia, carregada de sentimentos precisos e múltiplas certezas. No fim, o amor é o que rege e o que fica. Espero que gostem.
"Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Pois metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que triste. Que a mulher que amo seja pra sempre amada, mesmo que distante.
Pois metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Pois metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço.
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância.
Pois metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e queoseusilênciome falecadavezmais.
Pois metade de mim é abrigo a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba e que ninguém a tente complicar. Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer.
Pois metade de mim é platéia a outra metade é canção.
"e de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura e disseste que gostavas tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados." Caio F. - O dia de ontem.
Gosto de margaridas amarelas, dessas cheias de vida, ternura e surpresa.
Sou apenas mais uma aprendiz da solidão natural a qual todos estamos submetidos, à procura de algo que eu possa chamar de abrigo, cercada de incoerentes por todos os lados.